Oracle North – Communion

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Existe uma linha que separa Manchester do resto do mundo. Os Oracle North atravessam-na sentados numa máquina do tempo pós-futurista semi-difusa. Por isso ouçam, senhoras e senhores, que de longe se levantam vozes divinas, se reescrevem livros sagrados e se reemulam escrituras de décadas perdidas nas águas devoradoras dos mares do norte e nas costas do Oceano Báltico. Ouçam, fiéis das estruturas sintéticas! Ouçam, crentes na Igreja Sacrosanta do post-punk e de Manchester. Ouçam! Ouçam! Os Oracle North são tudo aquilo que esperavam desde a morte de Cristo e de Curtis e da ressurreição de acordo com o Evangelho Segundo New Order. Mas não se ceguem ao entrar neste templo de luz refratária, que aqui se rezam mais que muitas fés… Entrem de coração aberto, meus filhos, entrem no fantasmagórico pequeno vasto mundo escondido nas ruas de Estocolmo dos Oracle North que agora se começa a abrir.

Depois de pequenas aparições esporádicas em edições da Kitsuné e da Palms Out Sounds, o quarteto sueco lança-se nas edições com este Communion EP pela altamente críptica Fake Meat Studios (desafiem-se a tentar entrar no site de algo que talvez nem exista). “Communion”, “Lykeion” e “Pacific” são os três mandamentos iniciais. Três mandamentos gelados e vaporosos, cravados em sintetizadores analógicos e enigmáticos sem forma definida. Não há dúvidas que tudo nasce nas sementes do cosmos do post-punk, mas os inúmeros anéis de ADN herdados da família germânica abrem as cerimónias a tantos mais fiéis quantos aqueles estilos, correntes e filosofias que se consigam dissecar através das linhas deste manual de conversão, reversão e afiliação de novos seguidores.

Communion abre com “Communion” e quebra o mito de que o baixo de Peter Hook definia por excelência a sonoridade dos Joy Division e, principalmente, reassegura o papel fulcral de Bernard Sumner e dos New Order na história da “pop” (sim, as aspas são propositadas) e na marca que deixou em contemporâneos como os Cold Cave, os The xx ou Lust For Youth, nomes entre os quais os Oracle não destoam e ganham até um papel de relevo graças a extrema amplitude e ramificações da história que aglomeram em tão curto espaço de som. Prova mais que cabal – e de tantas formas cabalística – é “Lykeion”. “Lykeion” é a escola filosófica de Aristóteles e neste caso os silogismos não entram em campo, já que os caminhos percorridos em “Communion” são bruscamente interrompidos por uma sueca aurora boreal de leds brilhantes e pó granítico que cai sobre a paisagem industrial de Manchester. A germanidade diz presente – “Lykeion” significa liceu em alemão – e é dada uma aula de kraut fantasma e electrónicas dissecantes pelos Kraftwerk e pelos NEU!. Quatro minutos inquietos e paradoxalmente serenos de rádio frequências e de microscópicos seres pluricelulares por descobrir na Floresta Negra. A contemplação de um mini-mantra artificial de sentidos que se desenvolve e transforma na locomotiva alucinogénia de “Pacific”. Será o oceano ou um estado de alma?! Afectado e infectado por Manchester, Vini Reily é o pastor que prega a obra dos Suicide, sobre efeitos graves de drogas guardadas nos portões dourados do Céu desde que Timothy Leary foi para cima. “Pacific” usa as mesmas vestes cerimoniais da minimal e cold wave para mais uma vez se render ao post-punk, agora atmosférico e quase operático e, de uma estranha forma, campestre. O antagonismo ao próprio post-punk e mais uma nova recriação de um formato já há muito mutilado do seu formato primordial. Vida longa a sublimes mutiladores como os Oracle North.

“Keep Your Spirit Free”