A cumplicidade de uma amizade de infância é aquilo que deixa transparecer o álbum de estreia That Thing Reality lançado pela Kitsuné do duo indie folk BEAU.

Heather Golden e Emma Rose, duas jovens nova-iorquinas criadas num ambiente que lhes estendeu o tapete a um cenário evocativo de arte em todas as suas vertentes, tiveram como personagens inspiradoras mais próximas os seus próprios pais, também agentes discretos do movimento beatnik – um movimento socio-cultural emergente na década de 50 que advogava um estilo de vida liberto de bens materiais.  Envolvidas por um habitat culturalmente diversificado e rico, não foi com surpresa que as meninas, então com a tenra idade de 13 anos, tivessem escolhido a música para como rumo para as suas vidas. Munidas de guitarras e tutoriais encontrados no YouTube, trataram de aprender a tocar e juntas aprenderam e desenvolveram a sua aptidão musical, transformando lembranças de diários em poesia e, por sua vez, a poesia em música.

O álbum de esteia garantiu-lhes já uma presença performática no desfile da marca Chloe e honras de abertura para os concertos de BØRNS na sua digressão pelos Estados Unidos e de Edward Sharpe And The Magnetic Zeros em Londres. Muitas dos temas que fazem parte deste trabalho foram compostas a quatro mãos, enriquecidas pelas diferentes formas de avaliar uma mesma situação mas com uma vivência tão próxima entre os dois elementos da banda que lhes permitia completar o que quer que tivesse sido iniciado pela outra parte. A ambiência intimista criada para “Leave Me Be”, tema onde Heather e Emma aparecem tão entregues à sua amizade como à música, à semelhança de um casal que compartilha preocupações e o carinho na sua vida diária, foi construída em paralelo a um universo preenchido por perfeitos desconhecidos, os rostos anónimos que fazem parte do cenário de grandes cidades, como Nova Iorque. O vocal delicado de Golden parece aqui flutuar entre as batidas dreamy que permeiam a música, tornando a canção sedutoramente relaxante.

Mas é em “C’mon Please” que a silhueta forte das suas personalidades entra em cena, mostrando os pontos mais característicos dos seus temas. Muito além do sopro vintage e ambientes caseiros, um instrumental intenso ganha peso e significância arrematando a música para um volume mais elevado, sendo alinhado com camadas dream pop sem perder o tom melódico onde Golden equilibra os seus vocais com uma forma muito própria de cantar floreada com falsetes subtis.

O duo guia, assim, o seu álbum de estreia através de uma enorme beleza visual marcante, uma inocente jovialidade e uma energia que se expõe de forma muito bem desenhadas e igualmente bem produzidas. Aguardamos mais novidades por parte das BEAU.