A 11 de Dezembro, em domingo de derby, os ânimos não se exaltaram só no estádio, mas também na Underdogs Gallery, para mais uma sessão de Sofar Sounds Lisbon. Esta, que foi a 30ª edição, pautou não só pelo número redondo, que foi devidamente celebrado, mas também por se tratar de uma edição solidária, que ofereceu uma lembrança simbólica a jovens da associação Candeia, uma IPSS que se dedica ao acompanhamento de crianças que se encontram num ambiente carenciado. Desta feita, cada visitante desta edição do Sofar Sounds poderia contribuir com uma caneca recheada de chocolates e, pelo espírito natalício que com tanta força se faz sentir, contribuir com este pequeno gesto enquanto assistia aos concertos preparados para o domingo, juntando o útil ao agradável.

O espaço que acondicionou a última edição de 2016 – a Underdogs Gallery, situada na zona do Braço de Prata -, destaca-se por agir como plataforma cultural desde 2010, dando particular ênfase à arte urbana e permitindo, nesta edição, um ambiente de enorme impacto no qual a música e a arte, tantas vezes de mãos dadas, conseguiram estar presentes de uma forma combinada com muita mestria. Perante a exposição ‘Marginal’, de Francisco Vidal e Pedro Batista, abriram-se as honras e, com espaço, tempo e bebidas à vontade, a primeira actuação colocou-se a postos, já com um cheirinho a broas de mel e a sonhos.

Jorge Ferreira, de nome artístico Senhor Doutor, estreou o serão com a sua receita mágica de cantautor e premiou todo o público com uma performance bem castiça e catita provando, novamente, o valor da língua portuguesa na expressão musical nacional que felizmente não se encontra em extinção. Entre letras e poemas esmerados pelos cancioneiros tradicionais e pelos sons em rimas absolutamente sarcásticas e trágico-cómicas, Senhor Doutor surpreendeu o Sofar com os seus fados de várias escalas e com uma mistura de bossa e pop-rock. Fosse pela sua figura que batia o pé no chão, pelos dedos insaciáveis nas cordas da guitarra ou pelo estilo que tudo isso emanava, ninguém pôde ficar indiferente perante esta visita de médico.

Felicidades e males da vida, tudo foi ali cantado, e até um kazoo entrou em cena, brincando com os sons alterados e com a capacidade de tocar vários instrumentos em simultâneo. Através de uma actuação feliz e sinceramente animada, a austeridade, e o próprio frio, ficaram em stand-by. Debateu-se sempre com um tom espirituoso e caricato, falou-se dos desgraçados do quotidiano e os que se colocam na periferia com ou sem intenção, como a “Dama de Honor” e a sua eterna demanda pela felicidade, o proxeneta ou o jovem “Simão” em busca de melhores condições fora da sua terra natal mas, por força do destino ou do acaso, regressando sempre a casa e às paredes que lhe são familiares.

Senhor Doutor, que nos disse que “a tristeza era para ser vivida em conjunto” e que contou com Samuel Úria, de quem é amigo, em algumas orientações de letras que transparentemente têm a sua assinatura, causou enormes melhorias no estado de saúde de todos os presentes no Sofar. Entre instrumentais que pareciam saídos de uma fanfarra bem-disposta, como alguns sons dos Oquestrada ou Deolinda, por exemplo, e com intermédio do seu “Fado Austero”, o tempo superou tudo numa correria. Que todas as visitas ao médico fossem assim…

Senhor Doutor @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Senhor Doutor @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Os Norton, que actuam desde 2002, trataram da segunda actuação desta 30ª edição do Sofar. Pedro Afonso na voz e guitarra, Rodolfo Matos na bateria, Leonel Soares no baixo, e Manuel Simões na guitarra eléctrica e voz, representaram o ex-libris de Castelo Branco.

A celebrar em 2017 15 anos de existência com uma carreira que se consolidou através de músicas cantadas em inglês mas com uma veia poética muito própria, os Norton trouxeram sons que não cantavam há sete anos e o público, naturalmente, adorou. Entre os que conheciam e os que ficaram a conhecer e a lamentar não os terem conhecido antes, o Sofar Sounds conseguia provar, de novo, a diversidade nos géneros musicais que contempla desde sempre nas várias edições.

Com uma marcante percussão, surgiram faixas emblemáticas do grupo, como a “Two Points”, single do álbum Layers Of Love United, ou um cover de “Paris” dos ingleses Friendly Fires. Ainda “Brava”, do disco Norton de 2014 ou “Chocolate”, do álbum Pictures From Our Thoughts, de 2004. Com uma actuação melodiosa e franca com aproximação, por exemplo, aos Best Youth, os Norton temperaram muito bem o serão na Underdogs e encaixaram na perfeição, de forma mais acústica, deixando correr a sua discografia numa playlist seleccionando o best-of da composição e criatividade dos quatro elementos. Pedro Afonso tentou ainda, com sucesso, retirar do público a força para um coro bem afinado. Primeiro de forma tímida, depois, com mais confiança, a audiência entoou fervorosamente, pelas ordens amistosas da banda, e criou-se mais um momento para recordar na posteridade, um daqueles bem ao jeito do Sofar e das suas memórias felizes, em que artista e público são peças igualmente relevantes no tabuleiro.

Norton @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Norton @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Nelson Duarte é Niles Mavis e veio para agitar ainda mais as águas, fechando com a sua actuação a última sessão de Sofar do ano. O nome é proveniente de um trocadilho com Miles Davis, mítico trompetista e artista de jazz, e é também conhecido por Sr. Alfaiate, precisamente por ser um mestre no corte e costura de músicas, tão distintas quanto a dimensão de sons que consegue atingir cada performance sua.

O disco, Niles Mavis, saiu em Junho mas Nelson não é novato nesta tarefa de fazer dançar os ouvidos. Scratcher e turntablist que impõe respeito, foi também com Legendary Tigerman, os Buraka Som Sistema ou Sam The Kid que emprestou a sua arte, tendo partilhado também o palco com os De La Soul. Sozinho ou acompanhado, os seus discos nunca avariam com tantos riscos.

Niles trouxe ainda Riqo de Almeida na guitarra, Daniel “Dany” Alexandre nas teclas e Ricardo Pinto no trompete e, com este trio, acrescentou à sua performance uma dose irredutível de alma, blues, ritmo e um mapa de sons incrivelmente sublimes, entre a pop mais profunda e as palavras de ordem mais actuais.
“The Hat Makes the Man” surgiu com um sample da “Happy”, do Pharrel e “Diamond Cute” com a “Diamonds and Pearls” do Prince bem incorporada e manifestaram-se como um dos pontos altos desta edição, plena de contrastes. Pelas mãos, extremamente habilidosas de Niles, as viagens foram intensas e o público só desejava que o tempo esticasse. Foi ainda com “Get Some” que a energia geral foi contagiada por uma euforia de fim de tarde que só pecou pelo seu fim, inevitável.

Com este desfecho em grande por Niles, permanece a vontade de assistir mais vezes ao ballet de vinis e turntables, em que o tacto destapa surpresas e experiências de melodias que, em tudo, parecem saídas de um mundo novo. E assim, remata-se com muito groove um memorável ano de Sofar Sounds Lisbon. Promovendo, acima de tudo, a proximidade entre os artistas e o próprio público, a diversidade de géneros e estilos musicais, como disse Inês Pires da organização, o Sofar Sounds tem todas as razões para pedir os mesmos sucessos nos brindes para o próximo ano. Até breve!

Niles Mavis @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Niles Mavis @ Underdogs Gallery, Sofar Sounds Lisboa

Fotogaleria Sofar Sounds por Mariana Narciso

Sofar Sounds Lisboa @ Underdogs Gallery: As fotos