Compreender a atitude de Elliot Smith é entrar num estado emocional cheio de pontos de interrogação, confusão, solidão e de realismo absoluto. A sua postura meia grunge – liricamente falando –, torna-se em poesia pós-moderna musicada e interpretada por uma personagem que luta contra a alienação social, contra o desespero, contra a depressão e, no fim de tudo, contra o drama de uma vida completamente sem significado. Mergulhar no universo de Elliott Smith é encontrar um manual de sobrevivência para os dias de hoje onde o individualismo prevalece: encontramo-nos com a voz de um adulto que não se sente adulto. Mas quando é mesmo que nos tornamos adultos?

Amanda Palmer lançou, recentemente, uma interpretação do tema “Pictures Of Me” de Elliott Smith – pertencente a Either/Or de 1997 – que faz parte do álbum-tributo ao trabalho do cantautor norte-americano. Say Yes! A Tribute For Elliott Smith, lançado no passado dia 14 de Outubro pela American Laundromat. Além de Amanda, contribuíram para esta homenagem folk artistas como J Mascis dos Dinosaur Jr.YuckJuliana Hatfield, Waxahatchee, Jesu Sun Kill Moon, Julien Backer, entre outros.

Amanda Palmer: “Start, Stop and Start”

Amanda Palmer, de 46 anos criou, juntamente com Brian Viglione, os The Dresden Dools. A banda oriunda de Boston, Massachusetts, nasceu em 2000 terminando, entretanto, no ano de 2008. Actualmente integra o duo Evelyn Evelyn que formou com Jason Webley em 2007. Entre estes projectos, destaca-se também o seu trabalho a solo. É de enaltecer o seu trabalho em The Dresden Dolls juntamente com o baterista Brian Viglione, onde utiliza a música como forma de performance dando-lhe, de certa forma, uma característica única no cenário das suas actuações.

Uma cover é sempre uma interpretação de um artista sobre determinada música, que o respeita a si e à sua composição original de forma a prestar-lhe tributo. E Amanda consegue transformar “Pictures Of Me” ao conceder-lhe uma outra forma humana de dramatização. Atingem-se outros sentimentos que, talvez, nunca se tivessem atingido com o tema original. Talvez seja o piano que desenha uma voz mais profunda e arrepiante que começa por ser uma voz mais adolescente até atingir uma voz mais directa e cruel sem perder o lado emocional e harmónico da música. Dá-se vida a uma outra personagem que traz de volta aquilo que foi recalcado na sua vida: uma espécie de anti-catarse, com a qual nunca se atinge um estado puro.

I’m so sick and tired of all these pictures of me,

Essa anti-catarse que se pode explicar por um dos temas que Elliott Smith representa nas suas músicas, a alienação social. Se fosse possível criar uma fotografia sobre a vida quotidiana através de palavras, “Pictures Of Me” seria a fotografia ideal:

Here comes another guy
Jailer who sells
Personal hells

ou, melhor, “Everybody’s dying just to get the disease”. Como pode alguém escrever algo tão belo, porém cruel? Somos, de facto, vítimas de uma sombra criada por nós. Neste seguimento, Amanda Palmer cria, de certa maneira, algo único como se nascesse uma rosa no túmulo de Elliott ou como se estivéssemos encurralados na nossa própria imagem sem contemplá-la, mas repugnando-a.

Say Yes! A tribute for Elliot Smith: A eternização

Elliott Smith faleceu bastante jovem, com apenas 34 anos de idade, a 21 de Outubro de 2003. Que dimensão teria a sua obra se ainda hoje estivesse vivo?  Se em Heaven Adores You, filme realizado por Nickolas Dylan Rossi, se explorou certos assuntos desconhecidos sobre a vida do cantautor, em Say Yes! A Tribute For Elliott Smith as suas músicas ganham outra dimensão criada, de certa forma, por artistas que se deixaram levar pelo seu belíssimo trabalho. Na qualidade de ouvintes, estes artistas recebem uma emoção ou algo mítico que, depois, os levará a criar novas formas de conceber e de percepcionar a música. Este álbum-tributo é nada mais nada menos do que isso: dar uma nova forma ao legado de Elliott Smith dando-lhe o estatuto de lenda e, por conseguinte, o estatuto de eterno.

Elliott Smith

Tracklist
Between The Bars – Tanya Donelly
Ballad Of Big Nothing – Julien Baker
Pictures Of Me – Amanda Palmer
Waltz #2 – J Mascis
Needle In The Hay – Juliana Hatfield
Bled White – Yuck
Say Yes – William Fitzsimmons
Miss Misery – Tomo Nakayama
Waltz #1 – Escondido
Oh Well, Okay – Adam Franklin
Condor Ave – Jesu/Sun Kil Moon
Angeles – Waxahatchee
Division Day – Lou Barlow
No Name #3 – Caroline Says
Easy Way Out – Wild Sun