Compensar décadas de História a jammar no deserto com os Yawning Man

Outro dos grandes destaques do cartaz deste ano passa pela inclusão dos Yawning Man. A banda californiana cataloga a sua existência ao remoto ano de 1986, mas por vicissitudes da vida apenas editaram a primeira gravação de estúdio em 2005. Pelo meio desse tempo, ocuparam-se a tornar-se na banda mais influente na cena do desert rock em Palm Desert e zonas adjacentes. A sua proeminência apenas é afagada pelo facto de não terem alargado o seu espectro além fronteiras pela inexistência discos, mas quem os ouviu, credita-os como quase uma inspiração divina. Conhecidos por pegar em geradores e fazerem festas e jams no meio do deserto, os Yawning Man são frequentemente citados como uma ajuda suprema na criação de bandas como os Kyuss que, consequentemente, levaram à criação da cena stoner. Entretanto, a incrível agilidade musical do grupo é demasiado livre para se conotar com qualquer tipo de género e a sua inspiração vê-se em gentes tão variadas desde os anteriores referidos até aos próprios Radiohead e os Tortoise. Meditativos e absolutamente etéreos, os Yawning Man fazem a guitarra trazer um canto profundo e suave, cujos complexos padrões que desenham vão criando fabulosas harmonias de uma beleza natural que só pode ser experimentada em primeira pessoa. Esperam o quê?

A grotesca poesia dos Mécanosphère

A eterna poesia cantada e arranjada do colossal colectivo Brian Jonestown Massacre é, sem dúvida, um dos mais meritórios pontos de referência do cartaz deste ano, principalmente depois do aperitivo do ano passado que nos trouxe um dos seus membros-chave, Joel Gion. Contudo, uma das virtudes desta arte é que se pode fazer de várias maneiras e ninguém para saber isto melhor que Adolfo Luxúria Canibal. O veterano frontman volta a subir ao palco depois de o estrear com os Mão Morta em 2014 para se apresentar com os Mécanosphère, projecto que partilha com o percursionista Benjamim Brejon e que se destacará ao alto na programação do Reverence pela sua música futurista e spoken word penetrante, tingida a sangue e a profecia apocalíptica. Feito de densos drones e motivos selvagens que atiçam o jazz livre e a música concreta, o som deste grupo ocupa-se, principalmente, da veia expressionista que leva a palavra “textura” a um nível físico, impingindo o ouvinte a quase ficar com o sabor dos instrumentos na boca. Entretanto, a conjugação entre o orquestrado e a sempre possante entrega de Luxúria Canibal, fazem promessas de uma performance com mais poderoso nível de perigo.

Do shoegaze ao psych e ao drone, há muito paisagismo sonoro

Habituais paragens num festival como o Reverence são as esculpturas sonoras que arranjam novos sentidos às árvores que envolvem o Parque das Merendas e fazem o espaço dilatar no infinito mistério da noite. O festival não é estranho à descoberta de novas possibilidades sónicas e à música que se assume verdadeiramente como sinestésica. A presença dos The Cult Of Dom Keller é precisamente mais uma confirmação disto. Seminais artesãos do som, as imagens surreais tingidas a fogo e álcool apenas encontram par na música retorcida, a meio caminho entre o drone e o garage que se faz de motivos altamente repetitivos, transportadores e quase religiosos. A seita regressa depois de um concerto no Milhões de Festa ’14 para voltar a fazer descer sobre nós o sabor crepitante do napalm pela manhã.

Quem também regressa de 2014 são os A Place To Bury Strangers que, de resto, deram um dos concertos mais memoráveis da edição inaugural do Reverence. Algumas milhas acima na estratosfera com as suas guitarras estridentes e abordagem directa no discurso, o rock mordaz e veloz apenas intensifica ainda mais os níveis ensurdecedores de barulho que conseguem produzir, condição inexorável e imutável de uma banda que não se contenta como menos do que sair do palco com material e plateia completamente arrasados aos seus pés.

O Reverence Festival Valada acontece a 8, 9 e 10 de setembro na Valada do Ribatejo. Os passes gerais estão à venda por 70€ até 31 de agosto, após o qual sobem para 80€. Os passes diários para o dia 8 estão a 25€ (depois de 31 de agosto sobem para 30€). Para dia 9, a 35€ (40€ após 31 de agosto). Crianças até aos 10 não pagam e idades entre os 11 e os 14 têm 50% de desconto.