a Jigsaw @ Caixa Económica Operária

Rome + a Jigsaw

Passa das 23:00 do sábado e naquela quente noite de verão, ainda do último dia da Primavera, a ‘sauna’ da Caixa Económica Operária acolhe cerca de 100 pessoas que transpiram melomania, além do lógico suor, indiferentes ao castiço arraial da vizinha Voz do Operário. E o motivo, ou melhor, os motivos merecem aquela concentração de bom gosto. São os portugueses a Jigsaw, dupla de Jorri e João Rui (já recomendada pela revista LES INROCKUPTIBLES) que está promovendo o LP No True Magic, e os estrangeiros Rome (projecto do luxemburguês Jerôme Reuter celebrando 10 anos de edições), cujos concertos são os principais momentos da edição XXIII de Another Night At The Box, iniciativa d’A Comissão.

a Jigsaw: quantas gerações tem a voz de João Rui?

Um pormenor sugere aos observadores atentos que música será ouvida: na bateria, um dos elementos é um pequeno adufe, instrumento folk típico de sonoridades rústicas e ambientes orgânicos. Ao palco do salão quase fervente sobem seis artistas, com a The Great Moonshriners Band (liderada por Victor Torpedo) adornando a própria dupla a Jigsaw – maestro Jorri nos teclados e João Rui cantando e tocando guitarras e banjo -, que inicia o concerto com a sepulcral “Make Straight The Way”, canção do último LP No True Magic, que foca o tema (i)Mortalidade ou, como os próprios definiram, “suspensão da mortalidade”. Escutando o talentoso cante do jovem João, como se fundindo a voz do avô Johnny Cash com a do pai Tom Waits, emerge a questão “Quantas gerações tem a voz (da alma) de João Rui?”.

O concerto prosseguiu com a destemida “Black Jewelled Moon”, já com Tracy Vandal, cuja voz acrescenta algo bom – porque é muito feminina e delicada, contrastando com a máscula voz de João Rui, e porque de facto Tracy tem talento para fazer brilhar a própria voz. Recuando ao anterior álbum Drunken Sailors And Pirates, “One Right Lie”, que é quase vaudeville, soou muito fluída e com um travo de contemporaneidade dado pela guitarra de Torpedo, à qual se seguiu, do último LP, “Them Fine Bullets”, uma lúgubre valsa também em dueto vocal com Tracy.

Um momento alto do concerto foi a versão de “Lost Words” dos extintos Tiguana Bibles (de Vandal e Torpedo), num profundo registo country, mas também blues, oferecido pelo violino e pela guitarra, no qual a voz de dama negligenciada de Tracy foi muito bem completada pela de João Rui como se fosse a consciência pesada do homem em falta. De volta a Drunken Sailors And Pirates, “The Strangest Friend” foi introduzida como “uma canção sobre o silêncio”, que nada deve ao melhor de Nick Cave e cujos compasso e tom de voz etílico lembraram também The Pogues e o memorável Shane MacGowan.

A segunda metade do concerto foi mais focada no novo No True Magic. E coerentemente “The Greatest Trick” tem uma melodia quase esotérica (apesar de invadida pela guitarra mais rock de Torpedo), só que no final o público foi devolvido à terrena cons-Ciência, pela frase “the greatest trick of all was in your mind”. Atestando o bem concebido alinhamento de canções, a obrigatória “No True Magic” talvez tenha sido o momento mais profundo do concerto, pelo cante resignadamente decepcionado, reforçado pelo lamento do harmónio indiano.

“Hardly My Prayer” foi interpretada num comovente tom de perda, tão gris quanto o recente belo vídeo de Joana Linda para aquela canção. O quarteto de canções do catártico último álbum ficou completo com “Bring Them Roses”, que João Rui afirmou ser “uma conversa com Deus” (que pareceu ser feminino na etérea voz de Tracy Vandal), tendo o final com as vozes em coro uníssono remetido para a ideia do ser humano à imagem da criadora Deus. A excelente actuação dos a Jigsaw foi rematada com a burlesca “His Secret”, do álbum Like The Wolf, em libertino dueto vocal sobre música blues-rock – um fim em emersão da negra profundidade do No True Magic, após Jorri e João terem voltado a confirmar quão óptimos músicos e fazedores de canções são e que os melhores de Portugal podem valer mais o preço de um bilhete que alguns artistas estrangeiros.

Rome: o frio suave que amenizou a quente sala.

O segundo concerto foi mais diferente do primeiro que o que se previa. A Rome que Jerôme Reuter trouxe quase não tocou a sorumbática folk urbana dos trabalhos em estúdio – da qual Amsterdam é um exemplar extremo. A banda que tocou em Lisboa é competente executante de new wave gótica, talvez decepcionando quem desejasse mais dark folk, talvez surpreendendo bem quem prefere um gótico mais electrificado, com certeza agradando a quem prefere vozes como a de Reuter, muito parecida com a de Peter Murphy.

O alinhamento teve três partes. A primeira, na qual Reuter tocou guitarra eléctrica, teve uma sonoridade gótica, homogénea como a indumentária quase uniforme da banda, e incluiu temas como “Accidents Of Gesture”, “Les Iles Noires” e “A Pact Of Blood”. Na parte central do concerto, Reuter usou uma guitarra acústica, tornando o som mais folk, original e por isso mais interessante. Foram tocadas “Still Well”, “Neue Erinnerung”, “Feuerordal” e “One Fire”.

A segunda metade, até ao final, foi parecida com o início. Reuter voltou à guitarra eléctrica e tocou cerca de uma dezena de canções, entre as quais “Fairwell To Europe” (oportuna neste momento de crise identitária da União Europeia), “Automation” cujo baixo recordou os Interpol, “Birds Of Prey”, “Querkraft” e “Swords To Rust”, com a nova balada “Skirmishes” pelo meio. Terminado o concerto, os Rome estiveram bem, mas não fizeram esquecer a Jigsaw, que vieram a Lisboa com trunfos para ter sucesso em qualquer capital da Europa.