A celebração do terceiro aniversário do Sofar Sounds Lisbon não deu tréguas, e, no último domingo 26 de Março, escolheu-se de novo o incrível espaço Lost Collective como palco dos festejos. A comunidade artística contemplou as três actuações em domingo de chuva e contou com um numeroso público, com muitos espectadores estreantes no conceito, e outros mal aguentando a curiosidade por saberem daqui nunca nunca se sai desiludido. O cartaz da celebração, concebido pela mão de Nelson Ribeiro, estava colado à porta e, por contágio directo, o público foi-se instalando. A sala, acolhedora e quente, tinha uma peculiaridade: um gatinho dourado a passear-se entre as pessoas e os instrumentos. Conforme o cenário ficava pronto, cheio de boa-disposição e expectativa, Inês Pires deu por inaugurada mais uma edição de Sofar Sounds Lisbon.

Os Royal Bermuda de Diogo Esparteiro e André Parafina trouxeram “música bonita cantada por duas guitarras”, parafraseando a descrição que eles próprios assumem. O projecto, sendo recente, parece ter engolido já muitos anos de história e muitos dedilhares de corda. Não houve cerimónias perante tamanhas danças incessantes que cada um, ao seu jeito, superou com as guitarras. Dos Balcãs para as mais belas salas, ou ainda tendo pitada de banda-sonora dos filmes do Almodóvar, passando também por Cabo-Verde, Brasil, Lisboa ou outro canto exótico e animado do planeta, os Royal Bermuda agarraram a atenção do público logo ao primeiro segundo.

Como se fossem bardos e intemporais, lá foram tocando e provocando as guitarras para que dessem o seu melhor, esfomeadas de melodias entre a lenda, o mito, a tradição, e trazendo sempre a dose certa de alguma contemporaneidade. Nesse sentido, lembraram Giulia Y Los Tellarini, mas mantendo, em todos os momentos, um vigor invencível. Destaque para os temas “Gagícă Dance” e “Paraíso Cafageste”, paradigmáticos da música desenhada a quatro mãos, sempre com energia que causa inveja, e com uma musicalidade que impede os pés de ficarem sossegados entre fanfarra, a balada, os sons que faziam autênticos ricochetes nas paredes e tapetes do Lost Collective, e uma originalidade deliciosa.

Diogo Esparteiro, para além deste duo fresco e animado, é ainda membro dos Cows Caos e de Pás de Problème. Os Royal Bermuda já tocaram no We L You, que também acolheu uma edição do Sofar Sounds Lisbon juntamente com os Port Do Soul também repetentes no conceito-surpresa. Estes encontros felizes representam o que de melhor é feito por terras lusitanas e a magia misturada pelas varinhas do Sofar Sounds que já apresentou ao público nomes muito maravilhosos e aos artistas permitiu públicos hospitaleiros. O primeiro EP dos Royal Bermuda deve ser lançado ainda este ano, por estejam atentos e sigam o trilho das cordas da guitarra. Para quem quiser repetir a dose, a dupla tocará a 8 de Abril, às 22:00, no Sabotage com os Los Negros.

Royal Bermuda @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

Royal Bermuda @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

A segunda actuação coube a Alek Rein. Heterónimo de Alexandre Rendeiro, representou-se muito bem na guitarra e voz, juntamente a Luís Barros e à sua frenética bateria, contando ainda com o baixo de Alexandre Fernandes. Os três não tiveram mãos a medir para uma performance que transcendeu, a olhos vistos, o serão de domingo, com as gotas de chuva batendo fortemente na janela e o ritmo inundando todas as perspectivas da divisão. Depois do EP Gemini, de 2010, chegou Mirror Lane em Setembro passado, com um rock eléctrico, cheio de elasticidade, pejado de letras e sons bem temperados por um psicadelismo muito frontal e, sempre que possível, almejando as paisagens do Faroeste, como se Alek fosse um cowboy destemido. E é bem possível que o seja.

Alek Rein, merecedor de toda a nossa atenção auditiva seja a solo ou acompanhado, é habitué da ZDB e foi precisamente nessa sala lisboa que apresentou Mirror Lane. O disco, gravado por Filipe Sambado, contém 8 faixas intensas das quais se destacam “River of Doom” e “Mirror Lane”, o tema homónimo. Num delírio entre vários reflexos, note-se a pujança de Luís Barros e de Alexandre Fernandes – este último sendo detentor do projecto Sun Blossoms – imparáveis mesmo em momento de intempérie. Os três proporcionaram um momento de arrepiar até o poro mais teimoso entre malhas atrevidas e a realidade-ficção de Alek que nunca se sabe quando deixa de ser ou quando começa a ser Alexandre Rendeiro. E isso também não faz falta nenhuma já que causaram, sem dúvida, excelentes impressões no Lost Collective.

Tendo homenageado – e bem -, a música cantada em inglês, Alek e a banda não viram poupança nas palmas do público do Sofar Sounds Lisbon, aplaudindo com gana a surpresa e a actuação, ainda morna.
Entre rock’n’roll, solos de guitarra, um baixo bem presente e uma bateria que teve muito a dizer, Alek Rein deixará saudades, isso é certo. No fim de Abril tocará também no Sabotage.

Royal Bermuda @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

Alek Rein @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

Para fechar mais uma deslumbrante edição de Sofar Sounds Lisbon chegou Catarina Falcão, excelentemente bem acompanhada. Cat, uma das integrantes das Golden Slumbers a par com a irmã Margarida, entrega-se agora a um projecto individual. Com José Guilherme nas teclas, António Vasconcelos Dias na guitarra e back vocals, Sérgio Nascimento na bateria e Nuno Simões no baixo, tudo ficou bem pronto para a despedida. Cat, que já tinha marcado presença no Sofar por duas vezes em representação das Golden Slumbers, trouxe a sua guitarra acústica e a bela voz que a representa, marcando o fim de tarde com a segunda actuação do projecto a solo, que se auspicia feliz e talentoso.

José Guilherme também toca com as Golden Slumbers e Capitão Capitão e Sérgio Nascimento contribui com a faminta percussão para os They’re Heading West, Deolinda, David Fonseca ou Sérgio Godinho. Com estas parcerias tão bem-sucedidas e de enorme talento musical, Cat esteve sempre bem rodeada. Com “Change”, “One” e “30 Years”, temas que Cat Falcão foi apresentando ao público com Margarida Falcão atenta na primeira fila, chegou-se a uma musicalidade muito madura e calorosa, dando a todos a vontade de recostar, de sorrir, entre chávenas de café e biscoitos caseiros, e procurando o gatinho dourado para dar mimos. Cat prova que é bem capaz de dar voz a vários projectos, assegurando habilidade em todos eles e deixando água na boca para mais. Com traços de um folk muito bem redigido e de composição instrumental que teletransporta os ouvidos, difícil fica não ficar de atenção presa.

Cat Falcão @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

Cat Falcão @ Lost Collective, Sofar Sounds Lisbon

Cat Falcão actuará com a irmã Margarida, trazendo o melhor que as Golden Slumbers têm a oferecer, no dia 6 de Maio, no CCB. Esperam-se, ainda assim, mais datas de concertos a solo. Que o Sofar Sounds Lisbon tenha sempre tapetes e almofadas para albergar público tão feliz como o desta sessão. As boas surpresas nunca vêm sós, felizmente para todos. Até à próxima.