TeresaSalgueiro 'Horizonte'
TeresaSalgueiro 'Horizonte'

Teresa Salgueiro no “Horizonte” do espírito da Paz

 

Amanhã, a voz original dos Madredeus estará em Sintra, no palco do Olga Cadaval, prosseguindo a internacional digressão “Instante”, iniciada na Bélgica. Como início deste artigo, a artista Teresa Salgueiro poderá não gostar que se realce a herança do projecto que ela deixou há 9 anos, mas aquela frase destaca ainda mais a voz da própria Teresa Salgueiro. Porque foi com aquela voz que o conjunto vendeu três milhões de discos, até Teresa sair, em 2007. Porque era a voz de Teresa a referência da criação artística dos outros membros da banda. E porque foi identificando os Madredeus em todo o planeta, que a voz de Teresa Salgueiro tornou o seu nome mundialmente (re)conhecido.
Sem tornar Madredeus um tabu, é tudo factual. A singular voz de Teresa tornou única uma banda que não era a única com aquele conceito musical. Os Madredeus chegaram a dar cerca de 120 concertos por ano, a maioria dos quais fora de Portugal, no que foi uma fenomenal exportação portuguesa fora do Fado. E após ter saído dos Madredeus, Teresa Salgueiro manteve uma relevante carreira internacional, tendo cantado com algumas das principais orquestras e alguns dos mais importantes compositores de música erudita e tradicional contemporânea, além dos concertos em nome próprio. Concertos de digressões que, logicamente, motivaram a emancipação, porque foram justificadas pelos primeiros discos da carreira a solo, para um público que a cantora foi fidelizando durante os vinte anos no ensemble de Pedro Ayres Magalhães (e Rodrigo Leão, que a descobriu e propôs aos outros membros).

A emancipada Artista, que transcende o ‘berço’

“Horizonte”, o novo video de Teresa Salgueiro, confirma que aquela emancipação era inevitável. Os Madredeus serão sempre um dos melhores projectos da música portuguesa, mas Teresa Salgueiro vale per se, porque a sua sublime voz é mais grandiosa que Portugal, não só que os Madredeus. É uma voz com a imensidão do Mediterrâneo – ao menos da margem Norte daquele mar, que é toda a costa Sul da Europa -, além do (não só) mediterrânico Portugal, claro! Nesse “Horizonte” como em O Espírito da Paz e O Paraíso, de duas décadas atrás.
“Horizonte” é Teresa Salgueiro no flutuante estilo que melhor se adapta à sua voz muito lírica, mas não operática. É a profundidade marítima das ‘grandes cordas’ (do contrabaixo), com a suave ondulação lagunar do acordeão (porque há quem chame ao Mediterrâneo a mais grandiosa lagoa do mundo) e a perfumada brisa das guitarras – sem terrenos bombos e tambores. “Horizonte” é fechar os olhos, abrandar e aprofundar a respiração e ter o Poder de escolher (ou não) entre flutuar ou levitar.
É redundante tentar descrever e adjectivar o que é indescritível e só eufemisticamente classificável! Porque “Horizonte” é a voz de Teresa Salgueiro no ‘não lugar’ musicado com os instrumentos. É uma zona de conforto absoluto, uma redoma sem paredes, onde o espírito entra e sai (obrigado pela vida mundana) sem qualquer atrito, como um fantasma, mas não como assombração. Imaginem-se como anjos da guarda ou espíritos de pessoas muito queridas. E imaginem-se também sentados nas cadeiras do Centro Olga Cadaval, onde amanhã poderão fechar os olhos, abrandar e aprofundar a respiração e relaxar no sublime da voz de Teresa Salgueiro, acompanhada por outra excelente banda – ainda por cima na mística vila de Sintra! Mas agora, contemplem o plácido “Horizonte”, porque é mesmo ‘ali’ que Teresa soa melhor.