Caminhando nas fronteiras entre Sonic Youth e Slowdive, os The Altered Hours estão a tornar-se num fenómeno ascendente no panorama musical. Lançado em Janeiro passado, In Heat Not Sorry foi rompido de elogios pela crítica e advinha-se que vá integrar numerosas publicações de “melhores do ano”, estando nós ainda em Abril. A banda de rock psicadélico vai marcar presença no próximo fim-de-semana no Lisbon Psych Fest, sendo um dos nomes mais fortes do cartaz. A Tracker Magazine teve a oportunidade de falar com Cathal Mac Gabhann, o vocalista e guitarrista desta banda oriunda de Cork, na Irlanda, para falar sobre a banda, o novo álbum e as expectativas para o concerto de sábado.

Como é que os The Altered Hours surgiram?

A nossa formação tem mudado com o passar dos anos, mas tem-se mantido a mesma durante os últimos três anos. Juntámo-nos todos de maneiras diferentes: eu e a Elaine (Howley), conhecemo-nos desde muito novos, a Nora (Lewon) está com a banda desde o início, o Patrick (Cullen) juntou-se quando o nosso baixista não conseguia tocar mais e, por fim, o Kevin é o mais recente membro da banda, estando há 2 ou 3 anos nesta família. Vivíamos todos na cidade de Cork, na Irlanda, e conhecemo-nos em concertos, na faculdade, no trabalho, … Não há assim uma grande história, foi tudo muito natural.

Há quem vos compare a bandas como Sonic Youth ou Slowdive. Como é ser comparado a nomes tão sonantes no panorama musical?

É um grande elogio, sem dúvida! Gosto muito das bandas a quem nos comparam, mas também não me importo que o façam com bandas das quais não goste; considero que isto da música é um método de comunicação, e quaisquer que sejam as mensagens que o ouvinte retém, eu não tenho nada contra. Por exemplo, se alguém nos comparasse aos Black Sabbath ou aos Metallica eu não me importaria, mas quando nos comparam os Sonic Youth, acho isso muito fixe.

In Heat Not Sorry, o vosso primeiro disco, foi finalmente lançado em Janeiro passado. Como tem sido o feedback, tanto do público como da crítica?

Tem sido fantástico, estamos muito contentes por isso! Acho que a nossa intenção com este álbum era tentar, pela primeira vez, dar a conhecer o nosso próprio mundo. Relativamente ao feedback, tem sido positivo e causa-nos um grande sentimento de alegria. Quando damos concertos no estrangeiro, por exemplo, na nossa mais recente tournée europeia, e nos dizem que ouvem o disco durante o dia inteiro – enquanto lavam os dentes ou fazem a barba – sinto-me muito orgulhoso disso, saber que afectou a vida de algumas pessoas e dou mais valor a isso do que às palavras vindas da crítica. Confesso até que fiquei um pouco surpreendido que tenham levado o disco tão a sério, não contava com isso por ser o nosso primeiro disco e não sabia como seriam as reacções.

Downstream, Sweet Jelly Roll e agora In Heat Not Sorry são todos muito diferentes entre si. Será esta constante mudança característico do vosso som, demonstrativo da vossa versatilidade, ou estão ainda a tentar definir a vossa identidade enquanto banda?

Para ser sincero não tenho bem a certeza. Estipulámos como objectivo que não iríamos batalhar muito para nos ‘definirmos’, porque a energia que todos nós emitimos é muito única e característica e apesar de querermos continuar a mudar e melhorar, gostava que fôssemos uma banda com um som próprio que nos definisse, mas é difícil não escrever músicas com melodias e intensidades muito diferentes. Gostaríamos de ampliar a nossa sonoridade num futuro próprio, mas sem nunca ter medo do factor ‘mudança’, uma vez que é este que faz com que nos destaquemos.

Visto que a maioria das músicas deste disco são tão diferentes das dos EPs passados, como foi o seu processo de escrita? Foi necessária uma maior dedicação ou foi algo que simplesmente aconteceu com naturalidade?

Sim, elas aconteceram com naturalidade. Nunca dedicamos demasiado tempo a uma música uma vez que, por experiência, já sabemos que quando isso acontece nunca resulta muito bem. Quase todas as músicas que lançámos, especialmente as do álbum, aconteceram todas com naturalidade e foram escritas durante um período de alguns meses – algumas até antes do Sweet Jelly Roll – até entrarmos nos estúdios para as gravar.

Comparando os EPs com o LP, é evidente a evolução na vossa sonoridade. Tendo em conta essa maturação, consideram que este seja o disco de estreia perfeito, aquele que vos mostra enquanto banda?

Não, não o vejo dessa forma. Acho que se trata da “1ª fase” da nossa caminhada que nunca terá uma meta estabelecida; se estiveres à tua procura ou da tua identidade enquanto banda, será uma luta constante. Nesta altura este disco defino-nos mas quando lançarmos um novo álbum, ou um EP e singles, a energia e a mensagem desses podem ser completamente diferente.

Falando agora sobre a vossa tournée europeia, como é que está a correr?

Estamos agora na Irlanda a aproveitar uma pausa mas está a correr lindamente. Foi de loucos! Demos aproximadamente 22 concertos pela Irlanda, Inglaterra, Escócia, País de Gales e nos países mais sonantes da Europa. Estaremos em Portugal na próxima semana e em mais alguns sítios durante o Verão. De um modo geral tem sido fantástico, a afluência tem sido enorme em todos os concertos e as pessoas que conhecemos são todas muito simpáticas e amáveis. Chega a ser difícil descrever a sensação de conhecer pessoas que gostam e elogiam o nosso trabalho. Esperamos para o ano fazer uma tournée pelos Estados Unidos.

Sobre Portugal, vocês deram um concerto cá no ano passado no Reverence Festival Valada. Com que impressão ficaram do público português?

Quando tocámos aí, lembro-me de estarem uns 38º, o que não é comum aqui na Irlanda; aliás, agora mesmo, está a chover imenso. De qualquer das formas, divertimo-nos bastante mas ao mesmo tempo foi algo desafiante tocar com aquele calor e acho que isso se reflectiu um pouco no público. Ainda assim, acho que gostaram. Os portugueses são formidáveis, passei bons momentos quando fomos aí pela primeira vez.

Preferem dar concertos em festivais ou em salas fechadas?

Todos os concertos são diferentes – não há dois iguais -, mas se tivesse que optar, escolheria as salas fechadas porque em festivais não é possível, por vezes, fazer soundcheck e por isso as coisas podem não correr bem, ao contrário de concertos em nome próprio. Mesmo assim, há algo de muito bom em festivais, quando tudo corre como é suposto, é algo de incrível e é capaz de ser das melhores experiências para uma banda. Muitas das vezes é tudo uma questão da qualidade do som.

Então nesse caso, estão mais entusiasmados para voltar ao nosso país visto que vão tocar numa sala fechada e têm novo material para apresentar?

Sim, estamos todos muito entusiasmados por voltar, especialmente sabendo que vamos tocar a uma hora tardia. Prefiro dar concertos depois da meia-noite, acho que é a altura do dia em que me sinto melhor a tocar e também estou muito entusiasmado para ver os Gnod e algumas das outras bandas. Estou mesmo entusiasmado por regressar e aproveitar o vosso sol e a vossa gastronomia.

Acham que já atingiram o estatuto de banda de “culto”? Uma banda que merece ficar debaixo de olho?

Não sei dizer ao certo… sinto que já temos uma quantidade considerável de fãs em diversos sítios e temos conquistado a confiança de muitos. Mas não sei ao certo se alguma vez vamos alcançar esse estatuto. Por vezes tenho dificuldade em responder a perguntas do género “como é que achas que está a banda?”, porque é algo muito difícil de fazer, uma vez que estamos a viver a banda de dentro e não a olhar para ela de fora.


Como é que descreviam o que In Heat Not Sorry representa para vocês, a mensagem que querem transmitir através do disco?

Em primeiro lugar, se pegássemos no título seria uma mistura entre culpa e humildade: queríamos transmitir uma mensagem de confiança eterna, como se de um fogo inapagável se tratasse. Acho que é essa a mensagem que transmitimos, embora não a tivéssemos em mente antes de gravarmos o álbum. Em segundo, tem um grande valor sentimental para mim porque foi sempre gravado com os cinco membros da banda em estúdio – em todas as sessões -, e não houve individualismos por parte de ninguém. Foi tudo feito em equipa, o que criou um grande ambiente na sala e fez com que ficássemos ainda mais próximos. Sinto que é o nosso primeiro trabalho enquanto grupo, uma vez que os outros trabalhos foram feitos com menos pessoas e não com o actual line-up. Acho que é isso que o faz ser tão especial para nós e será uma memória querida para, daqui a alguns tempo, nos lembrarmos.

Para ficar a saber mais sobre esta banda, e entender a razão do furor que têm vindo a causar, relembramos aqui um artigo escrito em Janeiro pelo Jorge Gambóias.

The Altered Hours: Way of sorrow, para escolher uma identidade