Luxúria pop vinda lá de baixo

A dose de açúcar teria continuidade garantida com Luís Severo, que continua a sua volta vitoriosa largos meses depois do lançamento do seu disco de revelação, Cara d’Anjo. Particularmente especial no Teatro, o jovem cantautor iria apresentar-se em formato trio, com o baixo e a bateria a ajudarem a muscular a sua pop sensível e, por vezes, agridoce documento da tarefa de se passar de rapaz para um homem novo. Sem os artifícios das anteriores artistas que lhe antecederam, as manhas de Severo são outras, nomeadamente o seu incontornável carisma cujos jeitos naturais sabiam sempre arrancar bons sorrisos à plateia. Piscando-lhe o olho e balançando-se pelo palco enquanto trauteava as deixas para o início da música, o antigo Cão da Morte demonstrou o seu à vontade em ser um luxuoso anfitrião dos seus próprios temas que ainda mordazes, não são alheios a paragens mais soturnas. Começando sozinho, de guitarra na mão e sereno no olhar e na voz, dele saem histórias de amor, aforismos perdidos no canto da mente e especulações apoiadas por desenleio nocturno e lábios tintos de vinho.

Um forte contribuinte para o artesanato da construção de canções enquanto se redescobre a língua portuguesa, Severo move-se bem na própria simplicidade daquilo que escreve e transpõe para quem o ouve, tendo sobretudo sucesso para além da própria recriação lírica, visual e transportadora na execução da forma, ao conseguir encontrar sempre ágeis e melódicas formas de organizar em verso aquilo que quer dizer. Eventualmente acompanhado pelos seus dois parceiros, as suas canções crescem e o concerto ganha propriedades que inegavelmente potenciam o charme pop rock do seu espólio. Redireccionemo-nos para a excelente malha, por exemplo, que é “Cara d’Anjo”. Na recta final de um concerto que todo ele se manteve constante, chega a hora de terminar virado de costas (facto pelo qual, entre risos, pediu desculpa) à frente do piano de cauda, recriando um momento clássico de um concerto de teatro de um grande cantautor em progresso de construção. Severo tem o carisma, tem as malhas e tem as canções. E é bom assim.

Baleia Baleia Baleia, festa festa festa

Entretanto, chega hora de voltar para fora onde o muito jovem Dragão Inkomodo (que fez 18 anos este ano) esculpe beats violentos e abrasivos que tanto levam a mão para a anca, como para a cabeça tal é a sua força. O jogador da casa Zigur (à qual se juntou recentemente na label) reuniu uma enchente que, a este ponto, não tinha outra hipótese senão encher praticamente todas as pequenas ruas que compunham o centro histórico. O entusiasmo e ambiente estavam elevados, cortesia da descarga de adrenalina digital que o rapaz vai tirando através dos percussivos loops e dos riffs gigantes que sintetiza que, embora não sejam material do qual é feita música orientada para dança, inevitavelmente acabaram por levar aí. Experimentalista por natureza, nem por isso o Dragão viu necessidade em quebrar o ritmo ou levar uma rota mais progressiva. Fluído e dinâmico, traçou um rasto sempre a abrir que levou a outro projecto da casa, que do seu lado, no Palco Olaria, subiu logo a seguir para se certificar que a festa perdurava.

Fala-se agora de Baleia Baleia Baleia, outro projecto “familiar” do colectivo Zigur constituído por um duo altamente rítmico. A fórmula passa por um baixo sonante e híper-activo e uma bateria que encavalita toda essa energia em vagas ondulantes de ritmo com conotações mais pesadas. A meio caminho entre o pop rock sem vergonha e um punk mais vibrante e soalheiro, com certeza colega de turma do ska, os Baleia Baleia Baleia pegam nos elementos mais alegres e coloridos que o rock alguma vez engendrou, agitam-nos numa garrafa com gasosa e tiram a tampa para molhar toda gente. Um autêntico show de comunhão, a disposição que foi criada foi de genuína diversão e alegria. Jovens e menos jovens fundiram-se numa única faixa etária: a da festa. Bebidas e cartuxos de chá gelado eram trocados entre banda e plateia e o headbanging subsistiu ao longo do rol de letras satíricas com índices de saudável perversão e sensualidade suada.

O headbanging foi apenas o início de uma autêntica arruaça que gerou um moshpit no centro à boa do punk de festa doméstica, e pouco tardou para que as pessoas começassem a voar sobre as cabeças das restantes e que um dos PA’s quase tivesse balançado para o chão. No palco, o baixo ressaltava na sua própria distorção rap metal (nada a ver, atenção, com o nu), onde o funk ondulante aparecia para quebrar o ritmo mais agressivo encabeçado pelo carisma vocal e presencial do vocalista. Em termos técnicos, os Baleia Baleia Baleia são incrivelmente verticais no seu som, sendo capazes de mudar duas, três vezes de ritmo e oscilar numa montanha russa colorida que, falando agora em termos anímicos, se traduz em dança, sorriso e entusiasmo. Foi isso que os Baleia Baleia Baleia vieram trazer ao festival: mais do que oscilações loucas e liricismo profundo, foi uma abordagem descomplexada à arte de fazer música e uma vontade de induzir força e adrenalina a uma plateia que devolveu tudo isso a dobrar. Afinal, isto é tudo uma festa e não há melhor visão que explique isso do que ver um concerto onde uma plateia termina em cima do palco.

Acabar na proverbial caverna com Random Gods

Por fim, as camisolas molhadas e as caras a escorrer de suor indicavam um trabalho bem feito, mas a noite ainda estava para encerrar ao cheiro do incenso e no tom de uma flauta mística. Random Gods, projecto electrónico de Timóteo Azevedo, teve as honras de encerrar a noite, e assim o fez numa nota de levitação tribal e de uma mestria de beats discreta mas em todas as doses potente. Acabado de editar o primeiro disco pela Danse Noir, Gods encontram-se na composição electrónica e alicerçam-se dos beats dançáveis mas surge com um método orgânico que os torna um dos projectos mais curiosos e refrescantes do género. Os pads inauguram o espectáculo com drones que lembram uma qualquer reza tribal a ocorrer no meio da selva húmida, enquanto uma flauta é tocada pelo próprio no microfone que, através dos efeitos, amplia a sua sobrenaturalidade para trazer os áridos ventos do médio oriente à medida que o pau de incenso, anteriormente acendido, divaga pela noite.

O ambiente está completamente criado para receber uma hora que ela toda progride para um climax negro e xamânico. Toda a performance segue quase uma sequência narrativa onde a música se vai afundando mais profundamente nas paisagens reverberadas e fumegantes que encontram forma e caminho na componente mais tangível e cerebral: os beats. Emprestados das escolas do techno e do house, são eles a tocha que guiam a plateia dançarina pela caverna que é só fumo, e à medida que a romaria vai recebendo mais adeptos a festa, que começa morna e calma, adensa a sua adrenalina. Algo mais subtilmente do que aconteceu em Baleia Baleia Baleia, também Random Gods vieram beber da força e espírito que originalmente talharam para a sua plateia, e eventualmente a busca tribal transfigurou-se num autêntico piso de dança quasi-apocalíptico que chegou a ser banhado com vocais altamente processados e que puxaram ainda mais toda a riqueza visual que pode ser encontrada. No fim, já todos pulavam e o timoneiro do som devolvia os sorrisos e os pulos que encontrava à sua frente. Do início ao fim, uma viagem montada como peça única. Louva-se a fantástica experiência sonora que é ouvir Random Gods e a energia de um público disposto, curioso, dedicado em acompanhar e descobrir o artista no seu trabalho.

Lê aqui a reportagem do dia 01.

O ZigurFest entra amanhã na sua recta final com Pop Dell’Arte, 800 Gondomar, Solar Corona, Burgueses Famintos com o artista plástico JP, e Killimanjaro.

Zigurfest 2016

Zigurfest 2016