Tussilago

Há introspectivas canções pop que são de facto extrovertidas, porque quando escutadas atentamente, revelam um objecto exógeno ao sujeito e expressam o ecletismo dos seus autores, que foram capazes de veicular para aquelas uma diversidade de influências mutuamente distantes, somente por se deixarem fluir aleatoriamente ou não se submeterem a qualquer rótulo de um género – aparte a segurança de estarem embarcados na matriz rock guitarra-bateria-baixo e com a intenção de criar algo bom e original.

“Goldface”, que os Tussilago gravaram na Suécia, para o álbum Holy Train (à venda no próximo 10 de Julho), é uma daquelas extrovertidas canções introspectivas. Introspectiva porque é alguém falando sobre si próprio – “what goes on in my head now” -, lentamente se descobrindo (no sentido de destapar o que sente), mas extrovertida, porque apesar da austeridade vocal, “Goldface” é uma composição musical vinda de meio mundo: bateria tocada com uma técnica inspirada no estilo seco do africano Tony Allen, guitarras psicadélicas entoadas como na imensidão de um mar (ou de um deserto, com a areia que o cantor afirma estar empilhada em sua cabeça), e linhas de baixo minimais, badaladas com a frieza das tundras escandinavas.

E todavia, a extroversão mais imensa de “Goldface” é estar dirigida ao Sol, cuja luz intensa faz chorar, e sobretudo ser uma reflexão sobre a vida Humana e a relação das pessoas entre elas e com a mãe Terra. Ou estará apenas dirigida a uma íntima segunda pessoa, comparada ao Sol, à qual foi pedido que não maltrate o relacionamento de ambos? Diz-se que as melhores canções são polissémicas…

Don’t poison the ocean where we live.

Together we will sink or swim.

jorge m m
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