Twin Shadow

Twin Shadow – Eclipse

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Eclipse é sintomático. E poderíamos ficar já por aqui, deixando tudo em aberto para quaisquer interpretações possíveis, imagináveis e inimagináveis também. Mas consideramos que é não só do nosso interesse, mas também do de todos os que pensam ouvir o novo (e tão aguardado) disco dos Twin Shadow, que consubstancializemos, por um lado, a definição acima e, por outro, contextualizemos aqueles para quem George Lewis, Jr (muitas vezes tido como O Próprio Twin Shadow) e a sua trupe possa ser novidade… Morto que está, com este disco, o culto de que era alvo até agora.

Já não era o primeiro concerto em Portugal, aquele que o projecto deu no Clube Ferroviário, a 1 de Setembro de 2011, com transmissão online na Página de Facebook da Pepe Jeans London. Mas já os protestos contra um evento que foi publicitado aos sete ventos e provou ser, afinal, privado e mediante convite, vinham provando o culto que se formara em torno do então ainda humilde quarteto. “Isto parece aqueles concertos que dávamos na escola secundária… mas com menos gente”, sorria George, antes do “Tirant Destroyer” com que já abrira o primeiro concerto em Portugal e repetiria poucos meses depois no Lux Frágil.

Havia um calor intenso naquela sonoridade. Sentia-se no disco, como um vento soprando das latitudes a sul dos 80’s mas com renovado ímpeto, como se nos últimos anos todos os que o tivessem tentado não chegassem para nos aquecer, tampouco transmitissem aquela segurança em tirar o casaco e ficar em mangas de camisa. Ao vivo, tudo assumia uma outra dimensão. A viola baixo equalizava muito acima, sentia-se no peito, a bateria era um portento de energia, tudo dançava, minha gente, alegria pura, dura e contagiante.

O segundo disco trouxe algum amargo de boca, mas não o sobejo para que colocássemos os Twin Shadow de lado. Muito menos deixar de seguir, como groupies tontinhos, os concertos nos festivais. Rir quando, no Optimus Alive 2014, por exemplo, o carismático vocalista não conseguiu disfarçar a sua alegria pelo óbvio culto que assumia entre os portugueses e largou um “eh pá, viemos agora de concertos em Espanha e eu tenho que vos dizer… Vocês são tão melhores”, até que a teclista é obrigada a segredar-lhe: “Olha que isto está cheio de espanhóis” e ele pede desculpas… Mas não muitas.

Agora, a verdade sobre Eclipse. E não pensem que não é com algum (muito) incómodo que vos trasmitimos o seguinte. Fiasco. É a palavra. Quem conhece o “fenómeno” – porque foi-o – sentir-se-á, no mínimo, traído. Por muito que leve muitos destes temas para a próxima festinha onde porá música. Com os dois discos anteriores, e muito embora se tenha sentido tentado a fazê-lo, achou que aquilo era demasiado pessoal e preferiu ouvi-lo no iPod ou num convívio mais fechado em casa. E preferíamos esperar mais dois anos sem novos temas do que ser presenteados com isto. E o que é “isto”? Um disco normal. Poderia ter saído do ímpeto criativo de 95% das bandas que apareceram nos últimos tempos, com uma piscadela de olhos aos anos 80, ou talvez um aceno tão pronunciado que, convenhamos, já ninguém fala dos dois discos que o Prince lançou em 2014, quanto mais da queda da Madonna… Mas antes que se pense que vamos assassinar com requintes de malvadez este último trabalho, peguemos precisamente por aqui: Trabalho. Deu-o. E muito, estamos em crer. A produção está exímia e muito acima dos discos anteriores. Mas não era isso que tornava Twin Shadow um projecto tão aparte. Era precisamente uma plástica que nos fazia acreditar em samples antigos e que surpreendia em concerto pela descoberta de um renovado ímpeto roqueiro.

O piano, por exemplo. Que novidade, que mais-valia. Logo no primeiro tema: “We don’t wanna be flatliners, so pump, pump, pump it up” e pronto, cai-se numa vulgaridade que não augura nada de bom. Não queremos ser flatliners, é certo, mas também não queremos um disco que comece como começaria a B.S.O. de um remake do Fame. O segundo tema é mais contemporâneo, dance music bem pensada, mas longe do que seria de esperar desta banda, tal como acontece com “Top The Top”, que lhe segue, a apontar para um airplay que poderá muito bem ter, só não nas estações a que os Twin Shadow estavam habituados. “Alone”, um dueto com Lily Elise, é provavelmente o melhor tema do disco. Volta-se ao conforto do piano, a uma produção rara, efeitos inauditos, há crescendo épico, há tudo o que a melhor faixa de um disco poderá ter. O tema homónimo é a prova de que George está “eclipsado”. Os coros reverberados chegam a ser incómodos, não cabem ali, são de outra banda qualquer votada ao esquecimento, tragam o Richard Gere e produzamos já outro remake, o Oficial Reformado e Cavalheiro de Andarilho. “Turn Me Up” ou, de como ao sexto tema, os Twin Shadow ainda não conseguiram Turn Anyone Up e a coisa está a ficar tão séria a ponto de duvidarmos que isto resulte, sequer, ao vivo. “I’m Ready”, sim, é verdade, apesar de tudo estamos preparados e começamos tão bem… Até que surge o refrão. Pop, sim, mas sofrível. O oitavo tema é tecla “skip” e “Half Life” deixa-nos respirar alguma atmosfera Twin Shadow. Inteligente, o piano que dissipa e dá lugar ao sintetizador, queremos esta em concerto e talvez em disco também, é melhor premir o “repeat” antes que cheguem “Watch Me Go” e “Locked & Loaded”…

Não há muito mais para dizer excepto que ainda temos esperança. Muitas bandas prosseguiram o seu trajecto, sem sequer mudar de sonoridade, contornando um mau disco. Um disco menos bom, vá. Ou até bom para muita coisa. Menos para os Twin Shadow. Temos George em muito boa conta. Só não desta!