Só foi surpresa para quem não seguiu de perto as declarações do músico: o sucessor de How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o tradicionalmente difícil-segundo-disco que se segue a uma boa surpresa no primeiro, não foi um só. Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will be Asked to Retrieve Them veio acompanhado de Worst Summer Ever, um duplo-lançamento na penúltima sexta-feira de Setembro. Obras distintas que se juntam ao bastante respeitável repertório de Bruno Pernadas, músico e compositor com escola de jazz de quem já ouvíamos falar em projectos como Julie & The Carjackers e Real Combo Lisbonense. Depois do concerto em Braga, no gnration, estivemos à conversa com o músico.

Capa de 'Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them'

Capa de ‘Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them’

Para destrinçar a razão de dois discos distintos, lançámo-nos primeiro a Crocodiles, abreviação afectiva do músico para o seu extenso nome e sobre o qual é correcto assumir que “segue a linhagem iniciada no disco anterior”, diz o próprio Pernadas. Falta-nos, portanto, aferir que linhagem será essa. Joyful – esta, já uma abreviação de nossa autoria -, levou-nos a um universo musical rico e eclético, fruto da erudição académica do compositor, embora agarrado à noção de acessibilidade da música pop, um disco onde comungam, simultaneamente, o sample e o orgânico, o jazz e a electrónica; no fundo, e parafraseando o título do disco, constrói-se um teatro alicerçado pelo conhecimento formal, onde a música, traiçoeiramente simples, se revela simultaneamente ingénua mas ciente da sua complexidade.

Não nos demoramos muito a confirmar essa ideia: bastou ouvir “Spaceway 70” e logo surge essa linguagem que se propõe a (re-)explorar, volvidos quase dois anos desde o anterior registo, operando na intersecção entre a placidez mundana da folk, a energia rítmica do rock, e ainda a electrónica – representada nos sintetizadores, nos samples, etc. -, e mais uma mão cheia de referências, todas elas não mais do que etiquetas que prontamente perdem a utilidade mal se misturam no caldeirão de Pernadas. A partir daí, é tudo uma obra coesa, deambulação muito expressiva entre os vários instrumentos, ideias, fragmentos. Ao suplemento cultural semanal  Ípsilon manifestou como frequentemente lhe surgem excertos que, rapidamente, aponta na sua familiar notação musical; somos levados a crer que Crocodiles é o depurar de todos esses momentos, ideias entretecidas como um grande retalho, cujas costuras são um segredo bem guardado.

Ainda assim, surge-nos a questão: não estará Pernadas a aproximar o jazz do mainstream, por assim dizer, através dos seus discos? A hesitação foi longa, mas o “não, acho que não” foi quase categórico. “A componente jazzística está presente – nas harmonias, nos arranjos – mas não sei se chega a ser veículo de promoção”. E isto tudo fez-nos pensar num dos discos do ano passado, The Epic de Kamasi Washington, que não sendo tão exploratório e eclético como Crocodiles – isto é, sem ser denunciadamente pop -, puxou a si muita atenção e pôs o jazz de volta aos grandes palcos. “O Kamasi é uma referência dos tempos modernos. É famoso ao nível dos músicos de hip-hop [pelos quais se rodeia, i.e. Kendrick Lamar, Flying Lotus]; ele toca em festivais de rock e indie, e isto nunca aconteceu antes. Isto, que ele toca, é jazz mesmo – bastante tradicional até, meio espiritual. Mas isto, encher grandes palcos, nunca aconteceu antes”. Sugiro, então, que o jazz ainda é demasiado hermético e circunscrito à sua erudição, e haja quem o queira transpor para terrenos mais acessíveis. Levar as suas ideias-chave a outros géneros, como Pernadas tem feito, pode ser uma solução, ou um caminho a seguir. “Alguns estão a fazê-lo: os BADBADNOTGOOD, por exemplo, que têm a mesma formação que nós, mas que tiravam as piores notas porque as pessoas mais conservadoras não gostavam”.

Capa de 'Worst Summer Ever'

Capa de ‘Worst Summer Ever’

Posto isto, chegamos a Worst Summer Ever, o tal registo que nos chega quase como órfão e descasado e cujo lançamento simultâneo com Crocodiles foi afinal fruto de um problema de agenda. Terá sido gravado entre Joyful e Crocodiles. Ouvimo-lo; virámos o disco, por assim dizer, mas não tocou o mesmo. A característica que mais evidencia uma distância entre este e os dois já mencionados tem que ver com os músicos: o elenco mudou completamente, e estes são músicos dedicados integralmente ao jazz o que denuncia, ou sugere, a estética da música que produziram. Segundo Pernadas, Worst Summer Ever “não tem componentes electrónicas, além de dois samples, e tudo o resto é orgânico, com instrumentos acústicos a tocar; tem mais improvisão e solos. Respeita mais os cânones do género”. E acrescenta: “[Crocodiles] é um disco de pop. O outro é de jazz”.

E é-o, de facto, embora não esteja ao alcance de todos o conhecimento para o enquadrar numa estética, ou era, particular do jazz. Nem será necessário. Como nos outros discos mencionados, cada faixa de Worst Summer Ever trabalha uma ideia particular, desinibida e com as suas influências por vezes evidentes; é distinto quando ouvimos, em “Love Versus Love”, os loops electrónicos em comunhão com o saxofone quase espiritual à la Coltrane, simbólica justaposição entre o moderno e a tradição; “This is Not A Folk Song” suspende a energia do disco e namora, descomprometida, outras paisagens musicais; e tudo culmina na última “Before It Gets Too Late”, endiabrado exercício musical, guiados pelo drive da percussão e do piano. A guitarra de Bruno, fiel companheira nas lides do jazz, também aqui marca a sua presença; mas não representa, como perguntámos ao músico, uma forma de modernização do género, já que sempre foi o seu instrumento de eleição e “há imensos músicos que tocam guitarra no jazz, embora se pense sempre nos sopros”.

Com tudo isto, podemos especular com justa causa se não será este o ano de afirmação de Bruno Pernadas como um dos valores mais importantes da música portuguesa. Sobretudo Crocodiles dar-lhe-á merecido espaço em airplay nas rádios nacionais (já o escutámos na Antena 3, por exemplo), e tem garantido o concerto no Vodafone Mexefest deste ano. As portas do mainstream estão escancaradas, talvez pressionadas por uma possível ressurgência do jazz, e das suas correntes, na música pop. A terminar, pergunto-lhe: será possível um grupo encher festivais e chegar ao grande público mantendo a integridade da sua música, por assim dizer, sem grandes simplificações e ainda veículo das ideias do jazz?

Sim. Acho que sim. Não são todos os grupos neste momento em Portugal que conseguem fazer isso, mas há muitos que estão. E não tem a ver com técnica e linguagem, mas sim com a originalidade da música. Se for original, e diversificada nas estruturas, e fresca, algo que ainda não foi ouvido e muito bem tocado, as pessoas vão gostar. No geral, acho que vão gostar.

A sua resposta poderia ser uma descrição da própria música presente em Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them e Worst Summer Ever. Ambos saíram no passado mês pela Pataca Discos, e estão nas lojas à vossa espera. Por agora, Pernadas dedicar-se-á a compôr para teatro/dança/cinema, antes de um próximo disco, e aos concertos que terá entretanto. Não o percam. Em pouco tempo, o grande público não será suficiente para albergar a energia da sua música.