Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love

Unknown Mortal Orchestra – Multi-Love

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Faz-nos pensar… Como seria embrenhar-nos numa afecção amorosa profundamente platónica partilhada a três? Aquando da sua revelação, o tema que dá essência e corpo ao disco foi alvo de uma relativa mediatização. É, sem dúvida, uma premissa espantosa esta de estar num triângulo amoroso partilhado no seio doméstico e ao mesmo tempo transpor toda esta experiência em material gravado. Todo este alarido certamente contrasta com a reservada, e até isolada, postura de Ruban Nielson, líder do projecto neo-zelandês e conhecido apreciador da sua privacidade e paz de espírito. Contudo, as coisas parecem estar lentamente a metamorfosear-se para os lados dos Unknown Mortal Orchestra e, se a partilha deste tema tão sensível e íntimo em disco, bem como a sonoridade da faixa-título e primeiro single já faziam prever uma maior abertura e presença de luz num projecto caracteristicamente assombrado e soturno, o produto final abre-nos as cortinas: o bruxedo encantado dos Unknown Mortal Orchestra acaba de ficar (ainda mais) rítmico, elegante e confiante em si mesmo. Multi-Love é cheio de brio e de uma soul enfeitiçada por habilidosas composições orgulhosamente pop. Tudo isto à luz de umas quantas lâmpadas de lava que mantêm o tom psicadélico que nos fez apaixonar por eles em primeiro lugar.

Gravado no seu estúdio caseiro, nota-se uma grande vontade de experimentação por parte de Nielson. Nomeadamente no que toca à presença de sintetizadores e o uso da sua voz. É também bom ver que, apesar da intenção de “muscular” a música com novos elementos, houve também a sensibilidade de se manter a típica simplicidade que tornou II e o homónimo em autênticos tesouros indie. Para um disco com tanta presença por parte da produção, é de louvar como em nenhum momento Multi-Love se deixa levar em excessos ou saturações. A maior proeminência de ritmos e teclados nunca se torna descabida ou pouco familiar e estes novos elementos surgem antes como uma natural e bem vinda extensão ao som da banda.

Este ponto está à vista especialmente nas orelhudas “Can’t Keep Checking My Phone” e na já mencionada faixa-título, que certamente já se estarão a tornar em temas predilectos ao vivo. A muito bem implementada atmosfera soul/r’n’b de cave da primeira torna-a numa das melhores e mais dançáveis apostas do disco e constituirá um sério problema quando se tentar resistir a cantar o seu engenhoso refrão. Já “Multi-Love” é um claro trunfo de composição pela maneira como se equilibra esta faceta mais pop dos teclados com o exotismo encantado e sui generis dos trabalhos passados (atentar nas guitarras com sabor a caril que habitam na faixa título).

A abertura a paisagens mais dançáveis e ambiências ainda mais groovy continua em “The World Is Crowded” que é, em iguais metades, Unknown Mortal Orchestra clássico e uma bem disposta revigoração funk a merecer uma actuação com orçamento de gala. Um dos momentos mais relaxados e animados do disco, que nem dispensa aquele outro de guitarra com todo seu ar de cool de quem finge que nem está lá. Embora com um som mais trabalhado e refrescado, Multi-Love é um disco que não aliena o passado e sabe trazer de volta os pontos mais fortes da banda, como a sua aptidão para a melodia e uma estranheza que, ao invés de desconcertar, conforta e faz relaxar. A segunda faixa, “Like Acid Rain”, é um exemplo disso, com a sua, de facto, acidez sónica a colocá-la na linha de momentos familiares como “Jello And Juggernauts” e “One At The Time”. Mais à frente, “Extreme Wealth And Casual Cruelty” surge para dividir o álbum em dois e criar uma espécie de “estação de serviço” onde a banda nos faz parar e lembra-nos como também sabe administrar as suas doses de avultada bizarria numa canção onde não falta um encorpado anti-solo cheio de barulho e afinações exóticas.

A nível de mensagem, a sua descodificação é óbvia. Com tudo o que lhe estava a acontecer na altura, Nielson decidiu pegar no que apreendeu para criar um disco que delibera pessoalmente sobre umas das maiores problemáticas da Humanidade: a comunicação e as relações que todos travamos uns com os outros. Acabou, portanto, por fazer um álbum liricamente reservado, que se abre pouco e sucintamente releva uma nesga daquilo que seria a sua mente na altura. Bastante em conformidade com a personalidade do músico, é provavelmente seguro dizer que a fonte de inspiração para Multi-Love actuou mais na elaboração deste mundo bizarro, incerto e aluado que é a sonoridade do disco. E quanto a isso, não há queixas.

Profundamente relaxado e pintado em nébulas púrpuras que dançam calmamente ao lado dos padrões rítmicos e circulares da voz e guitarra de Nielson, Multi-Love é um disco que de facto, se pode considerar como múltiplo, visto que lado a lado são colocadas sem esforço, composições leves e airosas regadas com sopros, como “Necessary Evil”, e momentos de uma alienação freak feita de uma folk psicadélica criada nos bosques que é “Puzzles”. É a faixa mais longa e a escolhida para encerrar o disco. É também aquela que menos se correlaciona com o presente do projecto e mais lembra os primórdios. Provavelmente deixada como uma nota que os Unknown Mortal Orchestra não descuram o passado? Seja como for, passado ou presente, o espólio da banda mantém-se igualmente de alta qualidade e este terceiro disco é uma indubitável marca de progresso que pavimenta um intrigante futuro. Entretanto, fiquemos divididos pelo poli-amor pelo que já se pode ouvir do grupo.