Vincent Von Flieger @ SMUP

Vincent Von Flieger + Izzy Bunny

Todos devíamos ter um, todos, e sem excepção, devíamos ter um sótão na nossa vida. Um sótão onde se guardam recordações e fotos comidas por amarelos temporais nostálgicos esquecidos em baús desusados e abandonados ao pó do tempo. Todos devíamos ter um, todos, sem falhar ninguém, devíamos ter um sótão na nossa vida onde uma avó ou uma tia antiga, mas não tão antiga como as histórias de lobos vermelhos de sangue de meninos no canto da boca e soldados desfeitos em amarelos temporais sem nostalgias de tempos de fome e guerra desaparecidos em papel fotográfico, nos contava histórias com a feliz saudade do tempo que não volta a ser. Todos devíamos ter tido um sótão na nossa vida enquanto crescíamos, enquanto descobríamos os primeiros discos, aqueles primeiros discos que estremeceram a essência superior da existência, a essência suprema da definição do eu por uma rodela cravada de som. Todos devíamos, pelo menos, ter tido um momento de sótão na vida, na descoberta do amor ou do sexo, das drogas ou dos sonhos… Todos devíamos ter um amigo e um sótão ou um amigo num sótão, vivo ou morto!

E aqui fizemos um novo amigo e ganhamos um novo sótão para guardar uma nova memória. Vincent Von Flieger, alemão de sangue mas vizinho de alma de Will Oldham e Neil Young – e de horas a ver o sol pôr-se lentamente por debaixo de paisagens de campos de trigo – subiu-nos ao sótão lindíssimo, com janelas para a sinfonia das folhas das árvores ao vento que acompanhavam as canções de Day 1 e Tropical Block, de um segredo bem guardado na Parede. Ali entre o mar e a vontade de fazer existe um oásis que se quer guardar como um segredo, chama-se SMUP e nem vale a pena descrever… apenas conhecer. Assomem-se aqui as alminhas que muitas histórias ali se vão escrever.

A intimidade de nada mais que uma luz, um holofote em contraste com o escuro da sala e o escuro da música em contraste com a fé das palavras. Os derivados elevados ao ser especial que Von Flieger recria e inventa numa viola e dois pedais. É especial o que se vê entre os esgares no rosto de Vincent iluminado pelos retalhos ténues de luz que o holofote permite atravessar. Canções de futuro mas de actual complacência e a sua dor amestrada, canções de guerra na rua para a paz interior espreitam entre os rasgos de luz alguma, a folk chama a espaços a espiritualidade do reggae, a elevação espiritual contra a submissão física e emocional no concreto dos dias afogados em nadas para ti e tudo para eles – sejam os eles quem forem. “Yoga”, “Interplay”, “Island” – que abre a noite para não deixar dúvidas que aqui hoje se vai celebrar os mesmos sentimentos supremos que se cantam na voz de Ben Harper, Vedder sem os Jam, Thom Yorke ou Elliot Smith –  “22:22”, “Emoticon” do antigo projecto de Flieger, Mio Myo, a nova “Snow” ou a incrível versão para “Wildest Moments” de Jessie Ware são Redemption Songs, são salmos de esperança e de sincera beleza, sincera e sentida vontade de estar em mais lado algum do que ali com 50 amigos de sempre que acabou de conhecer e de fazer equilibrar a cada um deles dentro das canções que cantam em surdina. Sincera e sentida vontade de estar em mais lado algum do que ali com Vincent… porque a redenção chega sempre que um homem puder, Von Flieger relembra isso como ninguém! Contra os piratas cantar cantar!

Antes de tudo isto o sótão era outro, era em Brooklyn ou Manhattan ou Lisboa ou Istambul ou isso pouco importa. Além da atitude há a palavra entre o surreal e o juvenil, a ferocidade e a procura do onde não encaixar… Bunny não é Izzy mas também não quer porque entre Bocage e os Power Rangers há um mundo inteiro para desencaixar. E na sombra do candeeiro da SMUP está Patti Smith, Kim Gordon e Mac DeMarco e os segredos do universo punk visto pelo Anti-Popas e o Anti-Conde de Contarr depois de uma pedrada de cola à porta do CBGB se ele fosse no Bombarral. Continuas assim e não arranjas mesmo amigos da Cena… e ainda bem Izzy Bunny, ainda bem!

If I’m not leaving the house I will never be found…  – “Yoga” (Vincent Von Flieger)