Wooden Shjips + Black Bombain

Dia 6 de Março viu o Centro Cultural do Cartaxo receber os verdadeiros titãs musicais Wooden Shjips. Há quem vá a pé até Fátima e, apesar de não haver quem tenha ido a pé até ao Cartaxo, esta é uma peregrinação que deve ser feita.

Na primeira parte estavam os titãs nacionais Black Bombain. Enquanto não sai o aguardado sucessor de Titans, o trio de Barcelos Rock City presenteia-nos com o seu incendiário set a que nos habituou de longas e, ao mesmo tempo, passageiras jams com algumas prometedoras miragens do que será o próximo disco no horizonte. Após o concerto dos barcelenses, o público que se gerou aguardava por um dos regressos mais esperados a terras nacionais. A dupla de DJ’s Glenn Pires e Candy Diaz lançava o mote entre bandas com sonoridades galvanizantes em linha com o mood do concerto.

Com a entrada do colectivo de São Francisco, o público estava ganho à partida. Hipnotizante, é talvez um dos melhores adjectivos para descrever os Wooden Shjips e foi exactamente isso que aconteceu. Uma hipnose em massa a que ninguém escapou incólume. Um pouco ao invés do costume com os Wooden Shjips, o concerto centrou-se não só no último disco da banda, Back To Land, mas sim num apanhado da carreira discográfica. Não caindo no universo do “best of”, a audiência foi presenteada com clássicos (se é assim que se pode chamar a uma banda notoriamente ainda de culto). O resultado é avassalador e constata-se que as músicas do último álbum funcionam melhor ao vivo do que em disco. E, talvez por causa disso, quando se escuta de novo o álbum, parece melhor do que antes.

O público foi testemunha de um ritual em que quatro xamãs dominaram os sentidos visuais e auditivos, armados de volume, ritmo hipnoticamente repetitivo mas seguro, uma base de baixo que nem um terramoto em São Francisco pode abalar, teclas circulares com melodias eficazes e projecções cada vez mais intensas e epilépticas. Os Wooden Shjips não tomaram a audiência pela força. Tomaram-na sim pela sedução bamboleante e dançável. Os solos de guitarra longos, lânguidos e mágicos são um dos pontos fortes, tanto em disco como ao vivo. A voz enterrada em delay e reverb só intensifica a noção de que estamos a ser levados para um ritual que só acaba com toda a gente a dançar como se não houvesse amanhã. Nem amanhã, nem barreiras. Mais do que um concerto, a presença dos Wooden Shjips transformou-se numa celebração à qual o público se juntou à banda em palco para dançar as últimas músicas, criando uma aura quasi-mística em que sombras, luz e som se fundiram num todo.

Após o concerto, ninguém estava indiferente ao facto que este, o último concerto da tour, foi um dos melhores concertos do ano. E sim, ainda só era Março. Concertos deste calibre talvez só mesmo em Setembro, no Reverence Valada Festival, organizado pelas mesmas pessoas que tornaram possível o regresso dos Wooden Shjips a Portugal. Que todos velejemos até lá e, caso seja necessário, que haja uma peregrinação digna de eventos religiosos, pois ocorrências destas não são tão comuns quanto isso.